domingo, 19 de julho de 2015

Violência psicológica em ambiente familiar





Um vídeo partilhado no Facebook levou-me a pensar num dos problemas mais encobertos da sociedade actual: a violência doméstica. Se em tempo escrevi sobre o assunto e de como, muitas vezes, apenas nos apercebemos dela quando alguém vai parar a um hospital sem possibilidades de disfarçar o sucedido, hoje vou falar de outro tipo de violência doméstica bem mais difícil de detectar.

Revestida de contornos muitas vezes indecifrável, bem mais escondida e disfarçada. Bem mais preocupante não só pelas consequências como também pelo modo como é empregue e escondida, a violência psicológica, para além de extremamente traumatizante, pode ser fatal.

Os insultos. As ameaças, veladas ou claras. A coação exercida aos mais diversos níveis, têm o condão de diminuir a vitima. Leva-la a sentir-se inútil. Incapaz. Imprestável. Os níveis de auto estima baixam consideravelmente chegando a desaparecer por completo. Lentamente a vontade de lutar e de viver vai sendo minada chegando nalguns casos a situações extremas.

O agressor, seja homem ou mulher, mantém perante familiares, amigos e conhecidos uma postura de pessoa relativamente calma e estável e transmite a imagem de que, em casa, está tudo bem.

A vítima, por sua vez, é coagida a não deixar transparecer nada do que se passa no seio familiar. São assuntos demasiado íntimos e pessoais e, se é difícil viver a situação, não é fácil encarar-se a si mesmo como estando a passar por algo que para além de condenado pela sociedade, se tornou um crime público.
Aos olhos de familiares, amigos e colegas de trabalho estas situações são quase sempre invisíveis, ou porque são bem disfarçadas ou mesmo encobertas ou porque o ritmo de vida actual, as dificuldades com que se deparam nas suas próprias vidas não se prestam a analisar conversas, situações ou reacções. Cada vez mais vivemos num mundo em que o convívio franco, a atenção e as reuniões familiares e de amigos, tantas vezes núcleos despoletadores de situações desagradáveis, vão escasseando e, quando existem, adquirem tons mais ligeiros e de menor duração o que não permite a atenção necessária para vislumbrar sinais de alerta.

Mas eles existem!

Uma cabeça baixa, um olhar cansado e mortiço. Os silêncios. Evitar falar de familiares e/ou de situações. A falta de vontade para fazer o que quer que seja. A ausência de autonomia e a referencia de que qualquer iniciativa não poderá/deverá ser tomada sem a opinião de um determinado membro da família. A procura, tímida embora constante, de alguém com quem falar sem que, no entanto, a conversa aconteça. Poderão ser sinais de violência psicológica. Sinais visíveis, mas dificilmente identificáveis.

Não são, no entanto os únicos.

No pouco que uma vitima deste género de crime possa dizer, é possível encontrar muitos mais: Referencias, ainda que breves e quase decifráveis a mensagens recebidas do agressor por telemóvel, redes sociais, email ou qualquer outro meio de comunicação e onde pairam ameaças mais ou menos claras. Mais ou menos veladas. Frases onde são detectados indícios de coação. Evasão nas respostas e a hesitação posta em cada palavra... Um olhar que se desvia. Sensação de mal estar perante familiares e amigos. Trejeitos de boca e expressões adoptadas perante referencias ao agressor... Ênfase excessivo em tarefas domésticas relacionadas com o agressor ou que deverão ser executadas para que este “não tenha nada a dizer”. Um “desleixar” na actividade profissional até então exercida com gosto e prazer, são outros aspectos que podem indiciar uma situação de violência psicológica.

Se bem que não devamos olhar quem nos rodeia como potenciais agressores ou vitimas, quando detectamos alguns destes sintomas e verificarmos que os mesmos ocorrem com frequência. Quando temos conhecimento de dificuldades acrescidas, discussões recorrentes, queixas e/ou comentários menos agradáveis, demasiado defensivos ou protectores em relação a algum membro do agregado familiar. Quando em presença um do outro há olhares, sinais ou palavras que possam antever situações constrangedoras não serão demasiado mantermo-nos alerta. Tentar perceber se algo de estranho se passa.

Sem invasão de privacidade, mas com a convicção de que a detecção atempada de situações potencialmente perigosas evita muitas vezes fins catastróficos e que os casos de violência psicológica culminam, muitas vezes, em homicídios e/ou suicídios, podemos (devemos) prestar a necessária a tensão à tomada de iniciativas ou decisões que contribuam para por termo a situações deste tipo.


Adelina Antunes
(19-07-2015)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O que fariam se...



Imaginem alguém das vossas relações que está em dificuldades extremas! Imaginem que não têm um modo de ajudar ou que, se o têm, não o querem utilizar!

Imaginem o desespero de alguém que apenas pretende resolver uma situação mas não tem meios para o fazer...

O que fariam?

Se soubessem de alguém que necessita desesperadamente de ajuda e que não tem onde a obter...
Seriam capazes de ajudar? Seriam capazes de, sei lá..., contribuir de algum modo para a resolução do problema?

Quem, de entre nós, seria capaz de contribuir para a solução de um problema que se aparenta insoluvel?

Quem, de entre nós, se tivesse conhecimento de alguém em grandes dificuldades económicas, se prestaria a ajudar?

Imaginem-se a vós mesmos: sem dinheiro, sem trabalho, sem alternativas, sem meios de resolver o que quer que seja!

Teriam coragem de pedir ajuda?

Teriam coragem de lançar um apelo, no Facebook por exemplo, expor a situação e pedir auxilio?
A maioria de nós seria incapaz de o fazer. A maioria de nós quando vê um apelo à solidariedade limita-se a fazer um "clic" no "gosto" como se isso resolvesse a situação.

Imaginemos um pai (ou mãe) de familia que não tem como conseguir o suficiente para dar de comer aos filhos...

Imaginemos que essa pessoa tenta pedir ajuda. Não importa como. Não interessa onde... Seriamos capazes de responder?

Não! Infelizmente a maioria de nós seria incapaz de o fazer e a outra parte limitar-se-ia a por um "gosto". Ou "like" se assim o preferirem.

Imaginem a sensação de dizer que não (ou ignorar um apelo) e mais tarde terem que ser vocês (nós) a lançar esse mesmo apelo...

Esperariamos solidariedade?


Adelina Antunes.