terça-feira, 15 de julho de 2014

Violencia doméstica

Quem trabalha ou já passou longos períodos numa urgência hospitalar já se deparou com certeza com situações caricatas em que o utente (ou, na maioria dos casos, a utente) dá entrada na urgência comhematomas, escoriações e por vezes mesmo com membros partidos atribuídos a quedas aparatosas e complicadas da qual terá sido vítima.

Um ouvido apurado ou mesmo a proximidade provocada pelo espaço destinado à espera leva a que por vezes se “apanhem” bocados de conversas. Ameaças veladas ou comentários sobre o que realmente aconteceu. Descobre-se então tratar-se não de uma vítima de queda mas sim de violência doméstica. O que fazer em tal situação? A violência doméstica é já um crime público e que pode ser denunciado mas…

Na maioria das situações, e se é outro utente que se apercebe da situação, a reacção natural é ignorar. Fingir que não ouviu nada do que ali se passou ainda que ao chegar a casa ou em conversa com familiares ou amigos comente a situação. Os diálogos que ouviu. As ameaças, mais abertas ou ditas entre dentes de modo a não ser percebida. Não há, salvo raras excepções, uma tomada de atitude por parte de quem se vê perante uma situação destas. Não se pode dizer que exista um sentimento de civismo, de solidariedade que leve a que alguém confrontado com estas situações decida actuar. Decida que pode. Que deve. Que tem obrigação de comunicar a situação à polícia que está sempre presente nestas instituições.

E que faz um funcionário que, por mero acaso, se aperceba que o motivo é, não uma queda mas sim violência? Toma uma atitude e informa a polícia? Devo dizer que, em muitas situações já é isso que acontece. Já existe nestes funcionários a consciência de que não podem ignorar a situação e, mesmo contra a vontade do utente, a denunciam.

Mas… e as vitimas? O que as leva a aceitar uma situação no mínimo degradante? Humilhante?

O que faz com que uma vítima de violência doméstica cale e prefira fingir que sofreu uma queda, um acidente doméstico ou qualquer outra situação do que ser directo e acusar o agressor?

Na maioria, se não na totalidade dos casos, porque esse é a última pessoa de quem esperariam tal atitude. Um marido (ou esposa), um pai, um filho, um irmão… alguém com quem convivem e em quem deveriam poder confiar. Alguém de quem esperariam protecção e não atitudes violentas, de coacção, ameaças, sejam elas físicas ou mentais. Na maioria dos casos porque sentem vergonha de serem vítimas dentro das suas próprias casas. Porque até gostam do agressor. Porque esperam que tal não se repita. Porque sente que, se calhar, até teve culpa. Que se mudar de atitude em relação ao agressor este talvez volte a ser o ser carinhoso de que se lembra…

O que leva a que alguém agrida quem é suposto amar? Proteger? Apoiar?

Muitas razões podem ser, e são, apontadas. O desespero por uma situação de desemprego. O uso de drogas ou outro tipo de estupefacientes. O consumo de bebidas alcoólicas… ciúmes, traição… poderia enumerar muitas que pretendem ser validadas pela situação de quem comete este tipo de crime. Não vejo no entanto que, seja qual for a razão, alguém possa validar uma situação deste tipo.

Em pleno século XXI, e malgrado as campanhas que vão sendo feitas para alertar para estas situações, ainda há vítimas que se calam até às últimas consequências. Ainda há quem tenha conhecimento de situações ultrajantes passadas em casa de familiares, amigos, vizinhos ou conhecidos sem ter a coragem de as denunciar. Ainda há espaço para se apelar à não-violência.

Onde pára o civismo? A humanidade de que todos nos deveríamos orgulhar?

Onde está a solidariedade para agir em situações deste tipo?

Até quando agressores e vítimas continuarão a conviver, a agredir e a ser agredidos?

Num mundo que deveria ser civilizado os casos de vítimas de violência e de abusos por parte de quem com eles priva, de agressões sexuais ou outras, continua a ser uma realidade não apenas em países ditos do terceiro mundo, como em países ditos civilizados.

Vivemos num mundo que se orgulha de combater a violência. Que invade países com a desculpa de proteger os direitos humanos.

Vivemos num mundo em que os governos fazem cimeiras ditas para proteger os direitos humanos.

Vivemos num mundo em que os militares percorrem milhares de quilómetros para defender as vítimas do terrorismo…

Vivemos num mundo que continua a ignorar as vítimas mais próximas. Aquelas com quem, muitas vezes, convivemos diariamente.

Porque são invisíveis aos nossos olhos. Porque calam a vergonha de serem vítimas. Porque…

Temos vergonha de assumir no caso de sermos vítimas.

Temos preconceitos que nos dizem que não nos devemos “meter” na vida dos outros…

Até quando?

Adelina Antunes

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