domingo, 20 de julho de 2014

"Invisiveis" ou incómodos?




Quarta-feira, oito da manhã de um dia qualquer de Julho, em pleno Parque das Nações, junto à entrada para um dos parques de estacionamento....

Já tenho dito várias vezes que gosto de Lisboa porque me permite ser invisível na multidão. Posso andar, parar, rir ou chorar sem ninguém ver e essa invisibilidade é-me por vezes necessária. Acredito que todos nós necessitamos dela de quando em vez mas se é bom ser invisível por desejo, necessidade ou o que quer que nos leve a desejar desse isolamento, nem sempre será assim e por vezes a invisibilidade pode ser aterradora.

Há dias alguém se aproximou de mim junto ao Pavilhão Atlântico. Procurava o sitio onde costumam estar os sem abrigo e, depois de questionar muitas pessoas, ninguém lhe soube dizer onde era. Indiquei-lhe este lugar. Não sei se é único na zona mas sei que existe e que se juntam ali um grupo considerável de homens, uns mais jovens, outros de mais idade pois vejo-os todos os dias quando venho a chegar ao trabalho.

Hoje aproximei-me. A intenção era dirigir-me a um deles. Fazer perguntas. Deixa-lo(s) falar. Dar-lhes a voz que a sociedade lhes nega.

Não consegui.

O grupo de carrinhos de super mercado continua ali. Alinhados e aparentemente individualizados. Em pleno passeio alguém dormia protegido por um cobertor. Fiquei parada durante algum tempo a ver a reacção das pessoas que por ali passam para irem para os seus empregos ou para apanharem um qualquer autocarro ou comboio. Não foi muito tempo mas foi o suficiente para reparar que quem passa nem sequer olha. Ninguém viu que ali, em pleno chão junto a um "amontado" de carrinhos de super mercado e de um caixote de lixo, alguém dormia.

Apregoamos a solidariedade. Os direitos do homem. A igualdade que deveria existir entre todos e a todos os níveis. Sabemos que o país, tal como a Europa e quiçá o mundo, se encontram em recessão económica. Que o desemprego tem vindo a aumentar e que, com ele, os casos em que a perda de emprego leva a situações limites também aumentam. Sabemos mas... o que fazemos para ultrapassar ou pelo menos minorar tais situações?

Não estará nas minhas mãos tal como possivelmente também não estará nas suas alterar a sociedade e o seu modo de agir. Possivelmente não poderemos fazer nada por qualquer um deles. Sabemos que uma pessoa, sozinha, não faz a diferença tal como compreendemos que as situações podem ser bem mais complexas do que parecem à primeira vista.

Não temos que mudar o mundo! Não vamos chegar ao ponto de considerar que com um gesto iremos salvar uma vida. Na realidade não vamos fazer nada. Vamos continuar a passar e a fingir que não vemos. Que não sabemos que ali estão. Não vamos pensar como conseguirão comida para o dia de hoje (um dia apenas de cada vez) ou sequer onde poderão cumprir as necessidades mais básicas. Não vamos...

E porque não? Porque não olhar para alguém que, por um qualquer motivo, se encontra afastado dos padrões "normais" da sociedade? Porque não falar-lhes? Ainda que nada tenhamos para oferecer...

Porque não tomar consciência que existem e que algo deve ser feito? Afinal não são invisíveis e a multidão nem sequer os esconde pois... afasta-se deles.



Adelina Antunes



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