domingo, 18 de dezembro de 2016

“Quer este bebé?"




Rotunda da Boavista, Porto, 17 de dezembro de 2016, sábado, final da manhã.

Talvez pelo facto de ser sábado, ou porque o Natal se aproxima a passos largos, os passeios da rotunda da Boavista, no Porto, encontravam-se bastante movimentados.

Uma senhora com cerca de sessenta anos, desloca-se ao ritmo que a sua perna direita, ligeiramente paralisada, lhe permite. Um coxear ritmado que no entanto não a impede de se deslocar e levar uma vida o mais normal possível. Nada nela a destaca dos restantes transeuntes que se deslocam cada um no seu sentido. Cada qual movido pelas suas próprias necessidades ou interesses.

Vai a pensar na chamada que recebeu a comunicar-lhe que os óculos estavam prontos e no desejo de se adaptar com facilidade pois sabe que, em situações específicas, estes serão fundamentais quando alguém se aproxima.

Se tivesse que o descrever apenas conseguiria dizer que era do sexo masculino, na casa dos cinquenta anos, talvez, vestido sem luxos mas com um aspeto ligeiramente cuidado. Ao colo, embrulhado numa manta com traços de já ter aconchegado outros corpos antes deste, um bebé “lindo de morrer” olhava-a com pequenos e brilhantes olhos escuros.

“Quer este bebé?” A pergunta apanhou-a de surpresa pois um bebé não é algo que nos ofereçam na rua. A resposta surgiu de forma quase automática: e o que é que quer em troca?

Nada! Não queria nada. Apenas que tome conta dele pois vai-se embora e não o pode levar.
O instinto de pegar no bebé de imediato e de o aconchegar ao colo, foi superado pela razão que lhe disse que não se oferecem bebés na rua do mesmo modo que não se aceitam bebés de qualquer maneira.

“Até ficaria com ele sim pois é lindo de morrer mas já não tenho idade para tomar conta de bebés.” Recebe um sorriso como resposta e o estranho afasta-se do modo como se tinha aproximado. A rotunda volta a mergulhar no ruído de uma multidão que se desloca para os mais variados destinos.

Tudo volta ao normal.

Tudo?

Alguém notou que, em pelo século XXI, na cidade do Porto, uma pessoa ofereceu um bebé a uma estranha? A alguém que, para além de já não ser uma criança, se desloca com dificuldade?
Com que intuito?

A possibilidade de se tratar de uma tentativa de assalto foi a mais imediata e a que não sai do pensamento desta senhora que, em plena cidade do Porto, sábado, 17 de dezembro de 2016, foi abordada por um estranho que lhe ofereceu um bebé em troca de nada mais do que “que cuidasse dele”.

É impossível dizer que saiu desta “aventura” tal como entrou, pois se não carregou o bebé oferecido em seus braços, este jamais sairá da sua memória.

“Quer este bebé?”

Quer. Claro que quer. Claro que o primeiro instinto foi pegar-lhe, abraça-lo. Ficar com ele...

No entanto um bebé não é algo que possa ser dado. Oferecido... aceite desse modo.

Restam as memórias. As recordações de um sábado, em pleno dezembro, época de amor, de dádiva e de partilha onde a única oferta que recebeu teve que,… recusar!

Adelina Rocha (Antunes)

domingo, 25 de setembro de 2016

Taxa de desemprego em Portugal





Num universo em que familiares, vizinhos, amigos e conhecidos continuam a engrossar filas à porta dos Centros de Emprego. A calcorrear ruas ou a passar horas infindáveis em frente a um computador ou numa qualquer empresa de trabalho temporário.

Num universo em que as possibilidades de emprego parecem resumir-se a Call-Center, Helpdesk ou Telemarketing, surgiu há dias a notícia de que, em Portugal, o desemprego diminuiu. 

Os números são oficiais e transmitidos pela comunicação social que assim nos mostra o que de outro modo dificilmente veríamos. 

E não veríamos porque não conseguimos ver os números de desemprego a baixar quando procuramos um trabalho que não surge ou quando somos preteridos por quem se sujeite a contratos de meses, dias, por vezes horas. 

Quando a experiência que detemos é incompatível com a oferta. Quando é insuficiente ou quando ultrapassa os requisitos necessários.

Quando o subsídio de desemprego (nos casos em que ainda existe) mal chega para a renda da casa mas não somos elegíveis para qualquer espécie de apoio de cariz social.

Quando ao fim de meses de desespero e de “controlos quinzenais” constatamos que nem uma vez fomos contactados pelo Centro de Emprego com qualquer proposta ou quando somos “dispensados” de um trabalho em que estávamos integrados, apenas porque um colega é familiar do patrão.

Mas mesmo vendo-os, e por muito oficiais que sejam, é difícil aceitar números que contradigam a realidade que nos rodeia. 

Sabemos que os números reflectem um panorama geral e que as taxas de desemprego variam conforme a zona, a estação do ano ou o escalão etário mas também sabemos que aqui, onde estamos e rodeados por tantos casos de desemprego, a realidade continua a ser dura de enfrentar. A procura de trabalho continua a ser~, quase, uma “missão impossível”.

Também sabemos que a falta de um ordenado leva a que pagar renda de casa, água e luz, tenham que ser ponderados ou mesmo deixados para segundo plano sob risco que não conseguir comprar algo para comer.

No entanto os números estão a baixar o que pode significar uma luz ao fundo de um túnel demasiado profundo. Demasiado difícil de calcorrear. 

A esperança é a última a morrer e esperamos deixar de fazer parte dessa percentagem que apesar de ser cada vez mais baixa, continua ainda demasiado alta.



Adelina Antunes

domingo, 19 de julho de 2015

Violência psicológica em ambiente familiar





Um vídeo partilhado no Facebook levou-me a pensar num dos problemas mais encobertos da sociedade actual: a violência doméstica. Se em tempo escrevi sobre o assunto e de como, muitas vezes, apenas nos apercebemos dela quando alguém vai parar a um hospital sem possibilidades de disfarçar o sucedido, hoje vou falar de outro tipo de violência doméstica bem mais difícil de detectar.

Revestida de contornos muitas vezes indecifrável, bem mais escondida e disfarçada. Bem mais preocupante não só pelas consequências como também pelo modo como é empregue e escondida, a violência psicológica, para além de extremamente traumatizante, pode ser fatal.

Os insultos. As ameaças, veladas ou claras. A coação exercida aos mais diversos níveis, têm o condão de diminuir a vitima. Leva-la a sentir-se inútil. Incapaz. Imprestável. Os níveis de auto estima baixam consideravelmente chegando a desaparecer por completo. Lentamente a vontade de lutar e de viver vai sendo minada chegando nalguns casos a situações extremas.

O agressor, seja homem ou mulher, mantém perante familiares, amigos e conhecidos uma postura de pessoa relativamente calma e estável e transmite a imagem de que, em casa, está tudo bem.

A vítima, por sua vez, é coagida a não deixar transparecer nada do que se passa no seio familiar. São assuntos demasiado íntimos e pessoais e, se é difícil viver a situação, não é fácil encarar-se a si mesmo como estando a passar por algo que para além de condenado pela sociedade, se tornou um crime público.
Aos olhos de familiares, amigos e colegas de trabalho estas situações são quase sempre invisíveis, ou porque são bem disfarçadas ou mesmo encobertas ou porque o ritmo de vida actual, as dificuldades com que se deparam nas suas próprias vidas não se prestam a analisar conversas, situações ou reacções. Cada vez mais vivemos num mundo em que o convívio franco, a atenção e as reuniões familiares e de amigos, tantas vezes núcleos despoletadores de situações desagradáveis, vão escasseando e, quando existem, adquirem tons mais ligeiros e de menor duração o que não permite a atenção necessária para vislumbrar sinais de alerta.

Mas eles existem!

Uma cabeça baixa, um olhar cansado e mortiço. Os silêncios. Evitar falar de familiares e/ou de situações. A falta de vontade para fazer o que quer que seja. A ausência de autonomia e a referencia de que qualquer iniciativa não poderá/deverá ser tomada sem a opinião de um determinado membro da família. A procura, tímida embora constante, de alguém com quem falar sem que, no entanto, a conversa aconteça. Poderão ser sinais de violência psicológica. Sinais visíveis, mas dificilmente identificáveis.

Não são, no entanto os únicos.

No pouco que uma vitima deste género de crime possa dizer, é possível encontrar muitos mais: Referencias, ainda que breves e quase decifráveis a mensagens recebidas do agressor por telemóvel, redes sociais, email ou qualquer outro meio de comunicação e onde pairam ameaças mais ou menos claras. Mais ou menos veladas. Frases onde são detectados indícios de coação. Evasão nas respostas e a hesitação posta em cada palavra... Um olhar que se desvia. Sensação de mal estar perante familiares e amigos. Trejeitos de boca e expressões adoptadas perante referencias ao agressor... Ênfase excessivo em tarefas domésticas relacionadas com o agressor ou que deverão ser executadas para que este “não tenha nada a dizer”. Um “desleixar” na actividade profissional até então exercida com gosto e prazer, são outros aspectos que podem indiciar uma situação de violência psicológica.

Se bem que não devamos olhar quem nos rodeia como potenciais agressores ou vitimas, quando detectamos alguns destes sintomas e verificarmos que os mesmos ocorrem com frequência. Quando temos conhecimento de dificuldades acrescidas, discussões recorrentes, queixas e/ou comentários menos agradáveis, demasiado defensivos ou protectores em relação a algum membro do agregado familiar. Quando em presença um do outro há olhares, sinais ou palavras que possam antever situações constrangedoras não serão demasiado mantermo-nos alerta. Tentar perceber se algo de estranho se passa.

Sem invasão de privacidade, mas com a convicção de que a detecção atempada de situações potencialmente perigosas evita muitas vezes fins catastróficos e que os casos de violência psicológica culminam, muitas vezes, em homicídios e/ou suicídios, podemos (devemos) prestar a necessária a tensão à tomada de iniciativas ou decisões que contribuam para por termo a situações deste tipo.


Adelina Antunes
(19-07-2015)